Tenho muitos cadernos empilhados uns sobre os outros nos meus desorganizados armários do meu desorganizado quarto. Muitos papéis avulsos, folhas de ofício rabiscadas, pedaços de folha de caderno, panfletos de ofertas com poesia ou um rabisco insignificante no verso... Muita coisa! Síndrome de Diógenes, diriam. Talvez. Mas na verdade é essa minha mania de guardar tudo o que escrevo, seja a coisa mais idiota do mundo. Volta e meia minha mãe ameaça jogar tudo no lixo e eu corro a tempo de impedir esta tragédia.
Todas estas coisas e coisos que guardo são manuscritos – não estou falando de nada sacro – que guardo da época de minha adolescência, quando o computador e a internet ainda não tinham entrado na minha vida. Já então era conhecido entre os meus colegas mais próximos por escritor, coisa que eu muito discordava e muito negava. Afinal de contas, onde estavam os meus livros?
Lia as biografias dos famosos escritores da Literatura Brasileira. O meu favorito, Machado de Assis, tinha começado cedo; dezesseis anos e a primeira poesia publicada. Me chamavam de escritor. Mas, merda! Tinha mais de dezesseis e ainda não tinha publicado nada...
Um dia peguei uma folha de papel ofício, debrucei-me diante do meu aposento de bagunças e tentei tomar nota de minha produção “literária” até ali. Impossível! Com tanta produção ficava difícil controlar. Ficou uma disputa ferrenha entre a vontade de manter uma informação precisa sobre minha produção e a preguiça. Venceu a preguiça.
Em 2005 a Banda da qual sou baixista criou um blog, coisa que até então não me tinha sido apresentada. Que era um blog? Explicaram-me com o seguinte: “É tipo um site, só que menor.” E o que se punha em um blog? “O que você quiser”. O que eu quiser... Que bela oportunidade!
Fui a uma Lan House, novidade do momento, e comecei a acessar a internet. Criei um blog que não foi pra frente, como muitos outros vindos depois dele. A intenção não era tornar-me escritor a partir de um blog. Era divulgar o meu trabalho feito até então. Se havia elogios ao meu trabalho de quem lia os manuscritos, com certeza haveria também de alguém que lesse os textos no blog.
No entanto, manter um blog publicando de Lan Houses não é algo assim muito simples. Em uma hora não dá pra escrever um texto grande, especialmente a quem não é lá muito bom em digitação. Os blogs foram ficando para trás. As publicações pararam.
A escrita é que não. Durante toda a minha vida escrevi. Poesias, contos, crônicas, piadas, comentários... Uma vez iniciado, nunca parei o processo. Quando enfim comprei um computador, com a ajuda financeira de meu pai, obvio – porque desde então eu já era quebrado assim – pude começar a escrever com mais periodicidade, digitando textos antigos e criando novos já diretamente no computador.
E escrever, como em tudo na vida, é um processo de aprendizado. Quando releio alguns textos antigos tenho vergonha de mostrar, acho-os vazios, sem conteúdo. Hoje, no entanto, já escrevo com a intenção de publicar na internet, único meio que um jovem pobre do interior da Bahia acha de tornar público o seu trabalho. Sei que nada sei... sempre nada sei. Por mais coisas novas que vá descobrindo tem sempre uma mais nova pra descobrir, uma maneira de re-descobrir a coisa velha... O tempo não pára...